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Luanda - O Liceu...
por mwana pwo
A minha relação com o Liceu
D. Guiomar de Lencastre é também
antiga. Comecei a frequentá-lo, andava ainda na escola primária
(Escola 83, na Vilalice). Ia com a minha mãe. Gostava de ir brincar
para a «Cerca» e, apesar de um medo enorme, era atraída
pelo fosso dos jacarés. Achava graça àquele liceu
que mais parecia um palácio, de tão grande que era para
mim, com as suas escadarias e imenso jardim cheio de árvores cuja
sombra era fresca. Gostava dos teatros que lá se produziam (no
palco de um dos ginásios e também no anfiteatro) e adorava
ir ao camarim (que tinha uma entrada pelo jardim) ver todas aquelas roupas
coloridas de tule e cetim, tecidos que eu associava às princesas
e às rainhas.
Assim foi, para mim, o liceu - então feminino - D. Guiomar de
Lencastre, durante quatro anos.
Depois, entrei para o ciclo preparatório, na Escola
João
Crisóstomo, hoje Ngola Kanini.
Continuava a ir ao liceu, já misto, mas sempre D. Guiomar de Lencastre.
Ia com o meu pai, buscar a minha mãe mas um dia, em que quase
todos os meus colegas foram a uma missa (eu estava dispensada das aulas
de moral e religião), eu e mais umas amiguinhas atrevemo-nos a
ir a pé ter com as nossas mães ao liceu.
Foi uma aventura que nos valeu uns raspanetes.
Nessa altura comecei a reparar nas professoras e a decorar os nomes delas.
A directora, a Luísa Melo, com o seu ar bonito e austero, a Darcília,
a quem algumas alunas chamavam «se t’agarro, se t’apanho»,
imitando a sua forma particular de andar dada a deficiência que
possuía. No género da Darcília, havia uma outra
(de que não me lembro o nome) que eu adorava ouvir dizer, de forma
espontânea, a palavra wundervoll. Era certamente de germânicas
(professora de inglês) e penso que era de origem alemã.
Lembro-me da Dra Irene Calapês, claro! (morava num apartamento
perto da minha casa), das magríssimas Cesaltina e Gracelinda,
da Lígia Carvalho, da Ana Maria Grande, da Aida Freudenthal, da
Dilma, a exuberante professora de música e minha professora de
piano, da Mimi Diniz da Gama, da Elisa (de lavores), entre tantas outras.
Nessa altura gostava de um menino que já andava no liceu e que
tinha conhecido numa «farra» de carnaval casa dos Viterbos
(o Miguel e a Paula eram meus colegas na Academia de Bailado de Luanda).
Eram dois irmãos e costumava encontrá-los também
nas festas do Fred (no largo da Maianga) que tinha uma discoteca em casa.
Por isso, estava sempre em pulgas para ir «buscar a minha mãe» ao
liceu.
No ano de 1973 entrei finalmente para o liceu como aluna. Nesse tempo
já se podiam usar as batas curtinhas. As minhas eram tão
curtas que a minha mãe mandava sempre fazer uns calções
do mesmo tecido; para quando eu fosse ao quadro... Mas era ela que não
gostava de me ver de bata comprida, pelos joelhos, apesar das minhas
pernas que pareciam dois esparguetes.
Lá estavam as mesmas professoras e também alguns professores
homens: o Seabra e o Enes Ferreira (filho da professora Clotilde, de
Ginástica). A Lígia era a mesma, bem como a Dilma que se
fechava no armário dos instrumentos musicais (naquela sala no
fundo do jardim) e, quando nós achávamos que ía
ser borla.... Zás! Ela saía lá de dentro, tipo «Surprise!»,
mas gritava primeiro «Abre-te césamo!». Era um bocado
passada, mas muito fixe. Muito mais tarde, nos anos 80, numa das minhas
viagens a Portugal para os habituais cursos de verão, ainda fui
com ela lanchar à pastelaria Ferrari (antes do incêndio,
portanto).
Continuava a gostar de ir para a cerca, mas já não visitava
tanto os jacarés. Também não fumava.
Eram os tempos da Pró-Associação e do Grupo de Trabalho;
do MPLA e da UNITA; da FNLA. O movimento político entrava na escola
e separava os alunos por «simpatias».
Mas o ano lectivo não chegou ao fim. A «invasão» pelos
alunos da Industrial (?) apanhou-nos em plena aula de inglês. Enquanto
a professora Lígia ficava branca de medo, nós espreitávamos
pelas janelas. Quando voltámos a olhar para a secretária,
ela havia «bazado», deixando-nos ali, uma turma de miúdos
de 12 anos, sozinhos.
De tudo isso, a última imagem que retive foi a do professor João
Freitas e da Fátima Fernandes a segurarem os portões. Depois...
não me lembro de mais nada.
1974. Começaram os confrontos em Luanda e o nosso liceu transformou-se
em acampamento de desalojados e feridos que vinham dos bairros.
Enquanto alguns colegas partiam de Angola com as suas famílias,
os que ficavam iam ajudando no que fosse preciso.
Lá íamos todos os dias, apesar dos tiros.
Eu tinha ainda 12 anos. Fui destacada para as enfermarias.
Um dia, puseram-me um frasco de álcool numa mão e um pacote de algodão
(ou seriam gazes?) na outra. Enquanto o estudante de medicina destapava
a ferida de uma mulher que olhava para mim desesperada, ia-me dizendo:
põe álcool no algodão, vou ver se ainda cá está a
bala. Os olhos da jovem mulher eram pretos e doces, a ferida sobressaía
cor de rosa na sua pele negra. Senti que podia desmaiar e passei o que
tinha na mão a alguém que estava atento a mim e me mandou
sair.
A minha mãe também ia. Pedi-lhe que me «colocassem» noutro
lugar e fui parar à cozinha. Mandaram-me descascar batatas e não
ficaram satisfeitos com o meu trabalho de menina sem prática nessas
lides. Fui novamente mudada. Desta vez para o «posto» certo,
a secção das crianças. Levava-as em fila para a
cantina e, depois de comerem, brincava com elas, fazia jogos, entretendo-as
para não pensarem nas suas mães feridas, mortas ou desaparecidas
no meio dos tiroteios.
Às vezes ajudava a descarregar mantimentos que vinham em camiões
que entravam pelas traseiras. O jardim continuava lá!...
Haviam-se acabado as aulas de ballet, de piano, as professoras de francês
e inglês que iam a casa. As empregadas domésticas deixaram
de ir trabalhar e as crianças não podiam ficar sozinhas.
Em tão pouco tempo, vi tudo aquilo a que os meus pais sempre me
haviam poupado.
No liceu, aprendi que a vida afinal podia mudar de cenário. No
liceu, amadurecia cedo vendo feridos e mais feridos de todas as idades
chegar diariamente. Vinham dos bairros suburbanos e eram aqueles que
não estudavam, nem punham os filhos a estudar nos liceus...
Depois da independência voltei para o nosso liceu!
Era o «Ano da Recuperação». Todos deveriam
recuar um ano lectivo para se «acertar o passo».
Os programas haviam mudado e já dávamos História
de Angola.
O D. Guiomar de Lencastre foi rebaptizado. Agora chamava-se Nzinga Mbandi.
Das professoras antigas só me lembro da minha mãe, da Aida,
da Lígia, da Gracelinda...
A Fátima Fernandes era a directora. Exigente, mas amiga. E tinha
mão na malta que, entretanto, se tornara rebelde!
O Sr. Kituxi, hoje o nosso grande mestre do hungo, trabalhava na secretaria.
Entrei para o 4º ano. Não gostava das
aulas de Formação
Política (Marxismo-Leninismo), porque eram à tarde e dadas
por uma colega nossa que era da «Jota» (JMPLA).
O meu professor de matemática era o escritor Henrique Guerra.
Gostávamos dele. Liberal. Permitia que saíssemos a meio
da prova para ir ao quarto de banho e quando não acabávamos
o teste, deixava-nos a terminar, pedindo para o entregarmos, mais tarde,
na sala dos professores. Mas nem por isso as notas eram brilhantes.
Aos sábados havia campanhas de limpeza e todos participávamos.
Não, não éramos obrigados. Gostávamos e acreditávamos
mesmo que o nosso país precisava que todos arregaçássemos
as mangas para fazer de tudo para o desenvolvermos.
O ambiente era diferente. Tão diferente dos tempos em que eu,
menina pequena ia com o meu pai buscar a minha mãe. Parecia ter
passado tanto tempo...
No ano seguinte fiz o 5º ano e, ainda com 16 anos vi-me na Universidade
a fazer o Pré-Universitário.
Nesse ano comecei a dar aulas de dança e a dirigir a Escola de
Dança, pois as professoras tinham ido embora... Eram tempos de
experiênciar coisas novas.
Entrei para a Faculdade de Economia, mas nunca concluí o curso.
Fiquei-me pelo 3º ano.
Viria a formar-me em Dança, mais tarde. Muito mais tarde...
Morava (e moro) perto do liceu. Por isso, mesmo depois de sair, passava
sempre por lá e, do lado da rua, ia assistindo à sua morte
lenta por degradação.
Um dia, vi obras. Uma empresa estrangeira recuperou-o todo. Ficou lindo!
Outra vez pintadinho de branco, agora com umas cenas da vida da rainha
Nzinga Mbandi a castanho na fachada da entrada. Os vidros todos novamente.
Mas o jardim... o jardim nunca mais deu para pôr igual...
Hoje, quando me cruzo com o NOSSO liceu, penso na forma como a história
passou por ele e por mim, penso em tudo o que lhe aconteceu a ele e a
mim, em todas as pessoas que por ele passaram... e por mim.
Os alunos ainda enchem as varandas, mas o jardim já quase não
tem árvores.
No seu espaço, existem agora uma série de pavilhões
construídos para albergar o número de alunos que não
para de aumentar.
No camarim das roupas coloridas e atraentes vivia um militar maluco que
andava nu e se lavava numa torneira onde antes se ligava aquela mangueira
imensa que regava a relva, hoje apenas terra vermelha.
Mas o liceu está lá. Nzinga Mbandi! Firme e cheio de jovens
sempre de batas brancas. Alguns vidros outra vez partidos e alguns papéis
no chão.
A zona dos campos de desporto, na parte de trás, foi negociada
e agora é um parque de estacionamento de uma empresa qualquer.
No largo em frente, onde paravam os carros dos papás e as motos
dos «pretendentes» à hora da saída, kitandeiras
vendem mangas, abacaxi, abacates, mikates e chinelas havaianas em grandes
bacias; vendedores ambulantes apregoam cigarros, roupa interior, acessórios
para carros, sofás, fatos de banho, espelhos, cassetes de filmes
pornográficos e ferragens; os ardinas também passam para
vender os jornais (mais caros que o preço neles impresso) e a
revista Caras edição Angola, onde um jet set de novos ricos
não se envergonha de afrontar, em poses estereotipadas e sorrisos
idiotas, os que pouco ou nada possuem.
Nas conversas, quando me perguntam onde estudei, respondo: no Nzinga.
mwana pwo |