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Lino

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sexta, 26 maio 2006 - 18:40

RE: Huambo (Nova Lisboa)

África Hotel


Participo feliz, aos parceiros deste salutar sítio de amizade, o aniversário da nossa querida amiga Maria Albertina de Klerk Pontes - a Dona Tina, nesta data (26/05); a antiga proprietária desse inesquecível empreendimento hoteleiro, referência na Nova Lisboa de todos.
Externo, também, todos os nossos votos de felicidade plena, convictos de que este especial dia possa transcorrer na harmônica convivência com todos os seus amados familiares, e diletos amigos.
E, Dona Tina, sem me atrever a declinar a idade, peço a Deus que esta data possa se repetir por muitos e muitos anos!
Sinceramente


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sábado, 27 maio 2006 - 11:48

RE: Huambo (Nova Lisboa)

Huambo, hoje!


Ao desejo de um ótimo final de semana aos amigos desta seleta Comunidade, retransmito uma crônica do senhor Faustino, impressa hoje, no Jornal de Angola. Era uma expressão tão comum - e peculiar! - naqueles dias, e vejo que não só, que me gravou fundo na memória.
Espero que gostem.
Fraterno abraço!

Lino


Boleia! - Do Huambo ao Mungo, boleia, boleia…




Faustino Tchandja Tchenhe*

Percorríamos a única rua da vila do Mungo, a Noroeste do Huambo; jovens e adolescentes ao longo dela gritavam: boleia, boleia… Como havia mais lugares no carro, o condutor fez questão de parar. Para nosso espanto, não era boleia como tal que queriam; era uma maneira de saudar o carro. Saudar o carro é da praxe por aquelas paragens.
Lembro, com nostalgia, da primeira viagem que efectuei aos municípios do Bailundo e Mungo, a convite dum velho amigo, o kota Janeiro Lopes, que tinha necessidade de se deslocar àquela parcela do Huambo, no âmbito das suas obrigações laborais. É dessa viagem memorável que me proponho aqui partilhar.
Antes de partirmos, passamos pela praça do S. Pedro (a maior da província), onde compramos algo para beber e comer pelo caminho.
Efectuamos a primeira paragem no controlo do Bairro Benfica. Lembro-me que um dos agentes da Polícia ali destacados vinha ao nosso encontro, ansioso, talvez, em pedir a habitual e conhecida gasosa. mas quando viu dentro do carro o kota Janeiro nem sequer se atreveu em fazê-lo, dando antes sinal ao seu colega para que abrisse rapidamente a cancela.
Já tarde, dezoito horas, víamos ao longe uma vila acesa. Tratava-se da comuna da Tchipipa, privilegiada por um programa de desenvolvimento multi-sectorial e sustentado do Governo, que lhe confere um estatuto especial, à semelhança das comunas do M’bave, Kalenga e Lépi. A Tchipipa é histórica. Foi nela em que se assinou um dos acordos de cessar-fogo da guerra civil que dilacerou o país por quase trinta anos. O acordo fora subscrito pelos generais João de Matos e pelo já falecido Arlindo Pena Ben-Ben.
Ultrapassada a Tchipipa num abrir e fechar d´olhos, estávamos no Bailundo, onde passaríamos a noite.
Na manhã seguinte, por curiosidade, percorri sozinho a vila. Notava-se que a vida do município estava a despertar. Os serviços básicos do sector público, alguns a meio gás, estavam todos funcionais. As artérias da vila estavam coloridas de branco, crianças a ir para as escolas. Do Bailundo já se pode falar pelo telemóvel para qualquer parte do mundo, quer por uma ou por outra das redes de telefonia celular. Os chineses já lá estão presentes com as suas kónicas.
Nas calmas, fui percorrendo a vila. Passei pelo Clube Recreativo Municipal - que sofreu ligeira reabilitação -, pela igreja católica local… cheguei à famosa loja de um conhecido empresário local. Ali notei a falta de visão de marketing. A loja continha produtos de alta qualidade a preços muito além do poder de compra do morador comum da vila. Por enquanto, aos moradores do Bailundo faz mais falta imputs agrícolas, sementes diversas, sabão, óleo de cozinha, arroz e outros bens essenciais de primeira necessidade. Não precisam ainda de bens de luxo.
Tive o apanágio de visitar a montanha do Halavala, uma referência obrigatória do município; local respeitadíssimo, onde jazem os restos mortais dos reis Katyavala, Ekuikui, Mutu-ya-Kevela e outros. De muitos segredos, a montanha do Halavala é visitada com frequência por turistas nacionais e internacionais.
O célebre Bailundo é, talvez, o município mais propalado da região Centro e Sul senão mesmo de toda Angola, tanto a nível nacional como internacional. A sua fama remonta aos séculos XVI e XVII, aquando da resistência empreendida pelos seus heróis Katyavala, Ekuikui e Mutu-
-ya-Kevela contra a ocupação colonial. Bailundo era uma espécie de capital dos reinos tributários de Tchiaka, Ngalangi, Ngalanga, Tchivanda e Tchipeyo. Isso fez com que, hoje em dia, o topónimo bailundo se confunda com a língua e etnia Umbundu, e com todos que se identificam com o Centro e Sul do país.
É por isso que, aproveitando-se da sua importância histórica, Savimbi, em retirada do Huambo, fez do Bailundo, de 1994 a 1998, a sua “capital”. Durante a sua estadia ali, o topónimo bailundo era citado repetidas vezes nos órgãos de comunicação social de todo o mundo. Por essa altura, a tónica da política doméstica angolana era dominada pelos vai-e-vem de consultas do então representante da ONU Alioune Bye.
Partimos para o Mungo. Do Bailundo ao Mungo é longa a distância. Na estrada, ao longo das duas faixas de rodagem, ainda são visíveis os vestígios dos últimos combates ali travados. A estrada estava coberta por uma mata enorme, com variedades de árvores próprias da “banda”: meti, onduko, ukulankula, ayumbi, manda e outras.
Para matar o tempo, divertíamo-nos lembrando piadas da saudosa Gabriela Antunes, a Gaby, e das do saudoso Mesquita Lemos. Que Deus os tenha.
A conversa estava tão boa que nem sequer vimos a distância do percurso. De repente, estávamos na martirizada vila do Mungo, pejorativamente tratada de terra do fim do mundo. O Mungo é, talvez, o município que mais sofreu durante a guerra. Somente três ou quatro casas estavam de pé. Nem mesmo a igreja católica local foi poupada. Literalmente, a vila estava de “tangas.” Mas já eram visíveis os esforços do Governo para reerguer o município.
Tive surpresas no Mungo. Afinal sou descendente de lá. Pelo nome que tenho, não foi difícil saber do papel social da minha família na Ombala, pois que, entre nós ovimbundus, os nomes são propriedade da família, e cada família tem um estatuto inerente do seu papel na sociedade. Eu, por exemplo, pertenço aos kesongo.
No quadro da organização administrativa dos ovimbundus, kesongo, do verbo okusongola, isto é, dirigir ou conduzir. É a pessoa que exerce funções de conselheiro principal do rei e de comandante de exército. A ele compete anunciar a chegada do rei numa aldeia ou localidade. A ele compete também soprar a buzina do chifre de um animal sagrado para anunciar a morte do rei. Ele é o homem dos segredos de Estado, sobretudo os de guerra.
No exercício eficiente das suas atribuições, ao kesongo é exigido uma determinada conduta, cuja violação implica sanções. No dizer dos kotas, o kesongo nunca chega a rei, por mais que tenha qualidades para o trono. Não pode por não ser da família dos reis.
Podia ter ido às terras do Tio Sam, Portugal ou Brasil. Duvido que isso me desse tanto prazer interior como a minha viagem de boleia para o interior do Huambo. Foi como ter viajado para o interior das minhas origens.

*Faustino Tchandja Tchenhe é finalista do curso superior de Comunicação Social no ISPRA

(Fonte: Jornal de Angola, edição de nº 1.814, de 27 de maio de 2006 - Secção Geral)
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segunda, 29 maio 2006 - 17:10

RE: Huambo (Nova Lisboa)

Cena vinte e dois – Sapatos franceses


Noite pouco e mal dormida, durante o serviço de radiofonia, de umas três horas, se tanto. Os cheques da rede, desde Luanda, eram efetuados a cada duas horas e, por duas vezes, alternei e abasteci os pequenos geradores portáteis a diesel. Deitado, fardado e solitário, na poltrona improvisada de cama, no quarto do serviço de rádio, senti os primeiros raios de luz do domingo clareante de 1º de Janeiro de 1995, no rosto. No resto do mundo, outros se empapuçavam de guloseimas variadas e tonteavam-se com champanhe ou aparentados, comemorando o simbolismo da passagem do novo ano. Simbolicamente ou não, a triste população planáltica nada tinha a comemorar.
Ali era um outro tempo, uma outra realidade e, aos poucos, perdíamos a distinção entre sexta-feira, sábado, domingo ou segunda-feira, e todos os dias eram dias úteis.
Preparei-me para a patrulha à Vila Nova e Bailundo (Teixeira da Silva). Saímos às sete horas e excetuando os problemas inerentes à situação vigente, foi sempre prazeroso aquele percurso, mesmo no trecho por estradas secundárias, de terra, onde emanava um ar de rústica expedição campeira.
Ainda um pouco enjoado da ração militar encarada como almoço, à beira da estrada, retornamos à base da UNAVEM II, às 16:20 horas. Muitas pessoas presentes descarregando caixas e caixas de madeira, contendo vidros belgas para as dezenas de janelas, duplas, despidas do hotel. O Hotel Central Residencial (hoje, Hotel Nino) com o frontal retangular, voltado para a Avenida Presidente Craveiro Lopes, tinha uns quarenta pares de janelas, um número semelhante nos fundos, virados para a Rua Mariano Machado (aquela que passa atrás do Cine Ruacaná e segue em direção ao Banco de Angola).
Aí, nos fundos, havia um enorme terreno – o estacionamento do hotel. Estacionadas carcaças semidepenadas de dois, três veículos e uma carroceria coberta de carro frigorífico. Rodeadas por abundante pasto, sem ver corte a longo tempo. Em foto recente apresenta-se em elogiável modificação; cimentado, com portões e guardas uniformizados.
À direita desse terreno/estacionamento do hotel, existia um comércio de aspecto respeitável, à época e ao pessoal juízo, o melhor da cidade. Lastimo não recordar o seu nome, o que avivaria a memória de uns quantos. Construção antiga, ampla, arquitetura tão familiar e semelhante às construções da minha, então, saudosa cidade de colonização açoriana.
Soltei a mochila e o cantil no quarto e escapuli daquela confusão reinante de braçais e os vidros, tambores de diesel e policiais, ordens e gritos, diligentes e curiosos, gases e odores diversos. Cruzei o largo quintal e fui curar o enjôo namorando um par de sapatos pretos, avistado, dias antes, na vitrine do balcão no interior da loja. Fechada! Fora, na calçada, três ou quatro árvores copadas e verdejantes, sem flores. Dentro, poucas mercadorias, a maioria, acreditava, inacessível ao bolso popular. Preventivas e robustas grades metálicas nas aberturas e, na semi-escuridão interna, localizei, foscamente, o meu objeto de desejo.
Preciso levar alguma recordação do Huambo! Pensei. Os meus sapatos militares de passeio estavam caducando e os expostos eram muito mais bonitos; uniria o útil ao agradável. À distância, pareciam-me grandes, talvez houvesse um par menor.
Amanhã cedo retornarei! Decidi.
Manhã anuviada, cerração fechada e lá fui. O funcionário único, sem sorrisos, sem palavras e sem simpatia, atendeu-me. Quem sabe não estivesse na função de má-vontade?
O par de sapatos – franceses! – era único, como o atendente, porém, ao contrário deste, transmitia-me simpatia. Como foram ali parar, não imagino. Preço acertado, aos milhões, de kwanzas: 35.000.000 kw$! Convertendo para dólares, no câmbio do dia, ficaram por 43 US$. Mesmo assim, ainda, achei caro.
Ah! Mas o desejo!
- Posso prová-los? Perguntei.
- Teu pé tá limpo brasileiro?! Ainda hoje, torço para que a pergunta tenha sido ironia.
Provei. Faltou pé e sobrou sapato.
Saí contrafeito e rumei para a Missão do Cruzeiro (do Cuando) para buscar mais uma cisterna d’água. Levei o arroz solicitado pelo Irmão Álvaro Chimoco, o sempre atencioso tratorista, eletricista, mecânico e mil e uma diferentes funções. Enquanto aguardávamos o enorme carro-pipa das FAA completar os seus 10.000 litros, acompanhei o querido e saudoso Padre Alberto na excursão pela ampla e movimentada cozinha, depois, mostrou-me, nos seus aposentos, a sua companhia predileta – coleções de livros, sob um enorme Mapa Múndi.
Na volta à sede, esperava-me um dos técnicos do Laboratório de Análises Clínicas do Hospital Central do Huambo, para uma sessão de fotocópias. A inexigível troca de favores; lâminas para lá, cópias para cá.
Todavia, esse foi um bom dia, felizmente, e terminou melhor ainda, com a visita ao senhor Bispo do Huambo, em harmoniosa confraternização.

E os sapatos?!

Sapato novo ou velho há sempre um pé que se adapta. Se não estiver enganado, aquele cobiçado par ajustou-se aos pés de um grato amigo brasileiro da UNAVEM II. Destinava-se, pois, ao solo brasileiro. Se, porventura, existir, deverá andar pisando o solo capixaba do estado do Espírito Santo, vizinho do Rio de Janeiro.
Amigo C.H. boa compra, bom proveito!
Não trouxe nenhuma lembrança material do Planalto. A bela xícara portuguesa, adquirida nesse dia, ficou com a D. Teresa. O que trouxe comigo foram marcas na pele, na memória e no coração.
Sem permissão se instalaram e, ficaram.

Lino Cardoso
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terça, 30 maio 2006 - 12:10

RE: Huambo (Nova Lisboa)

...O melhor!, trouxeste o melhor, amigo! Sapatos...há muitos, mesmo que não se comparem aos franceses...

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