Huambo, hoje!
Ao desejo de um ótimo final de semana aos amigos desta seleta Comunidade, retransmito uma crônica do senhor Faustino, impressa hoje, no Jornal de Angola. Era uma expressão tão comum - e peculiar! - naqueles dias, e vejo que não só, que me gravou fundo na memória.
Espero que gostem.
Fraterno abraço!
Lino
Boleia! - Do Huambo ao Mungo, boleia, boleia…
Faustino Tchandja Tchenhe*
Percorríamos a única rua da vila do Mungo, a Noroeste do Huambo; jovens e adolescentes ao longo dela gritavam: boleia, boleia… Como havia mais lugares no carro, o condutor fez questão de parar. Para nosso espanto, não era boleia como tal que queriam; era uma maneira de saudar o carro. Saudar o carro é da praxe por aquelas paragens.
Lembro, com nostalgia, da primeira viagem que efectuei aos municípios do Bailundo e Mungo, a convite dum velho amigo, o kota Janeiro Lopes, que tinha necessidade de se deslocar àquela parcela do Huambo, no âmbito das suas obrigações laborais. É dessa viagem memorável que me proponho aqui partilhar.
Antes de partirmos, passamos pela praça do S. Pedro (a maior da província), onde compramos algo para beber e comer pelo caminho.
Efectuamos a primeira paragem no controlo do Bairro Benfica. Lembro-me que um dos agentes da Polícia ali destacados vinha ao nosso encontro, ansioso, talvez, em pedir a habitual e conhecida gasosa. mas quando viu dentro do carro o kota Janeiro nem sequer se atreveu em fazê-lo, dando antes sinal ao seu colega para que abrisse rapidamente a cancela.
Já tarde, dezoito horas, víamos ao longe uma vila acesa. Tratava-se da comuna da Tchipipa, privilegiada por um programa de desenvolvimento multi-sectorial e sustentado do Governo, que lhe confere um estatuto especial, à semelhança das comunas do M’bave, Kalenga e Lépi. A Tchipipa é histórica. Foi nela em que se assinou um dos acordos de cessar-fogo da guerra civil que dilacerou o país por quase trinta anos. O acordo fora subscrito pelos generais João de Matos e pelo já falecido Arlindo Pena Ben-Ben.
Ultrapassada a Tchipipa num abrir e fechar d´olhos, estávamos no Bailundo, onde passaríamos a noite.
Na manhã seguinte, por curiosidade, percorri sozinho a vila. Notava-se que a vida do município estava a despertar. Os serviços básicos do sector público, alguns a meio gás, estavam todos funcionais. As artérias da vila estavam coloridas de branco, crianças a ir para as escolas. Do Bailundo já se pode falar pelo telemóvel para qualquer parte do mundo, quer por uma ou por outra das redes de telefonia celular. Os chineses já lá estão presentes com as suas kónicas.
Nas calmas, fui percorrendo a vila. Passei pelo Clube Recreativo Municipal - que sofreu ligeira reabilitação -, pela igreja católica local… cheguei à famosa loja de um conhecido empresário local. Ali notei a falta de visão de marketing. A loja continha produtos de alta qualidade a preços muito além do poder de compra do morador comum da vila. Por enquanto, aos moradores do Bailundo faz mais falta imputs agrícolas, sementes diversas, sabão, óleo de cozinha, arroz e outros bens essenciais de primeira necessidade. Não precisam ainda de bens de luxo.
Tive o apanágio de visitar a montanha do Halavala, uma referência obrigatória do município; local respeitadíssimo, onde jazem os restos mortais dos reis Katyavala, Ekuikui, Mutu-ya-Kevela e outros. De muitos segredos, a montanha do Halavala é visitada com frequência por turistas nacionais e internacionais.
O célebre Bailundo é, talvez, o município mais propalado da região Centro e Sul senão mesmo de toda Angola, tanto a nível nacional como internacional. A sua fama remonta aos séculos XVI e XVII, aquando da resistência empreendida pelos seus heróis Katyavala, Ekuikui e Mutu-
-ya-Kevela contra a ocupação colonial. Bailundo era uma espécie de capital dos reinos tributários de Tchiaka, Ngalangi, Ngalanga, Tchivanda e Tchipeyo. Isso fez com que, hoje em dia, o topónimo bailundo se confunda com a língua e etnia Umbundu, e com todos que se identificam com o Centro e Sul do país.
É por isso que, aproveitando-se da sua importância histórica, Savimbi, em retirada do Huambo, fez do Bailundo, de 1994 a 1998, a sua “capital”. Durante a sua estadia ali, o topónimo bailundo era citado repetidas vezes nos órgãos de comunicação social de todo o mundo. Por essa altura, a tónica da política doméstica angolana era dominada pelos vai-e-vem de consultas do então representante da ONU Alioune Bye.
Partimos para o Mungo. Do Bailundo ao Mungo é longa a distância. Na estrada, ao longo das duas faixas de rodagem, ainda são visíveis os vestígios dos últimos combates ali travados. A estrada estava coberta por uma mata enorme, com variedades de árvores próprias da “banda”: meti, onduko, ukulankula, ayumbi, manda e outras.
Para matar o tempo, divertíamo-nos lembrando piadas da saudosa Gabriela Antunes, a Gaby, e das do saudoso Mesquita Lemos. Que Deus os tenha.
A conversa estava tão boa que nem sequer vimos a distância do percurso. De repente, estávamos na martirizada vila do Mungo, pejorativamente tratada de terra do fim do mundo. O Mungo é, talvez, o município que mais sofreu durante a guerra. Somente três ou quatro casas estavam de pé. Nem mesmo a igreja católica local foi poupada. Literalmente, a vila estava de “tangas.” Mas já eram visíveis os esforços do Governo para reerguer o município.
Tive surpresas no Mungo. Afinal sou descendente de lá. Pelo nome que tenho, não foi difícil saber do papel social da minha família na Ombala, pois que, entre nós ovimbundus, os nomes são propriedade da família, e cada família tem um estatuto inerente do seu papel na sociedade. Eu, por exemplo, pertenço aos kesongo.
No quadro da organização administrativa dos ovimbundus, kesongo, do verbo okusongola, isto é, dirigir ou conduzir. É a pessoa que exerce funções de conselheiro principal do rei e de comandante de exército. A ele compete anunciar a chegada do rei numa aldeia ou localidade. A ele compete também soprar a buzina do chifre de um animal sagrado para anunciar a morte do rei. Ele é o homem dos segredos de Estado, sobretudo os de guerra.
No exercício eficiente das suas atribuições, ao kesongo é exigido uma determinada conduta, cuja violação implica sanções. No dizer dos kotas, o kesongo nunca chega a rei, por mais que tenha qualidades para o trono. Não pode por não ser da família dos reis.
Podia ter ido às terras do Tio Sam, Portugal ou Brasil. Duvido que isso me desse tanto prazer interior como a minha viagem de boleia para o interior do Huambo. Foi como ter viajado para o interior das minhas origens.
*Faustino Tchandja Tchenhe é finalista do curso superior de Comunicação Social no ISPRA
(Fonte: Jornal de Angola, edição de nº 1.814, de 27 de maio de 2006 - Secção Geral)