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JORGE DEYLLOT

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9

terça, 24 janeiro 2006 - 19:28

RE: O Que Se Passou No Sul De Angola Ao Nascer Do Século XX

...Felizmente os Cuamatas entretidos a colher os despojos e a acabar com os feridos, não persistiram em levar mais longe a perseguição.

Ali perderam a vida o capitão de artilharia Luis Pinto de Almeida e o alferes da mesma arma Joaquim Pinto Rodrigues; os tenentes de cavalaria Adolfo José ferreira, Francisco Rezende e Alberto Freire Themudo, o alferes dessa arma Inácio dos santos Nunes; os tenentes de infantaria Carlos Tomás da Luz Rodrigues e Alonso Matias Nunes e os alferes da mesma arma Albino Chalot e António Pacheco Leão; o tenente do quadro ocidental José Ferreira e o alferes do mesmo quadro Manuel Oliveira; o alferes do quadro privativo Bernardo Correia Luis da Silva; o segundo tenente da armada João Faria Roby Miranda Pereira; o médico naval de primeira classe Dr. Manuel João da Silveira e o tenente da administração militar António Trindade.

Dos quatrocentos e noventa e nove homens de que se compunha a guarda avançada, morreram mais de duzentos, recolheram cinquenta feridos ao forte do Humbe e ficaram inválidos cento e noventa e cinco.

Deve-se registar, a bem da justiça e da equidade, que o conselho de guerra que julgou o comandante da coluna, o ilibou de toda a responsabilidade na tremenda fatalidade.

Quando se obtém uma victória, todos desejam compartilhar dela; quando a sorte volta as costas, escolhe-se sempre alguém para fazer derivar sobre a sua personalidade todas as culpas.

Foi uma desgraça como o foram as três expedições ao Bonga, na provincia de Moçambique; como a dos Dembos em Angola, em 1880; como a de Isandluana na guerra entre os ingleses e os Zulus em 1879; como a dos italianos em Aduá, na Abyssinia, em 1895; como a derrota da coluna do coronel francês Moll, no Soldão, etc., etc..



Em meados de 1907 parte de Lisboa uma expedição de pouco mais de mil homens, comandados pelo então capitão dos serviços do Estado Maior, José Augusto Alves Roçadas, tendo por imediato o seu camarada da mesma arma Eduardo Marques.

No dia 6 de Outubro desse ano, é tomado o Cuamato grande e vingado assim o terrível desastre de 25 de Setembro de 1904.

Não me vou alongar na descrição dessa brilhantíssima campanha, onde ao método, serenidade, à previdência e bravura dos dois chefes se aliaram factos da mais desassombrada intrepidez por parte dos oficiais e soldados expedicionários.

D'essa campanha podem citar-se actos honrosissimos para as armas portuguesas, como no combate de 27 de Agosto, as condições em que são feridos o alferes ajudante Veloso de Castro, o capitão Maria de Sousa Dias e o grumete António Augusto, o desditoso veterinário Pereira; como o capitão Eduardo Marques tinha o cavalo morto debaixo de si; a investida brilhante dos landins e acima de tudo a carga admirável da companhia de marinha comandada pelo primeiro tenente Victor Sepulveda, bem como no derradeiro recontro, o sublime ataque de cavalaria tendo à sua frente o então tenente Martins de Lima.

Para resumir, Alves Roçadas conseguira em poucos meses afirmar o abalado dominio português numa grande extenção de território, construindo fortes e postos militares para o consolidar definitivamente, estabelecendo muitos quilómetros de linhas telegráficas e telefónicas, assegurando bem alto que o soldado português podia sofrer revezes - ninguém está isento d'eles - mas que nenhum exército possuia homens mais resistentes, mais sofredores, mais dedicados aos seus chefes, com a noção mais exacta e mais radicada do amor à pátria, que com maior soma de sacrifícios estivesse sempre pronto a morrer pela sua bandeira.

JORGE DEYLLOT

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8

segunda, 23 janeiro 2006 - 18:52

RE: O Que Se Passou No Sul De Angola Ao Nascer Do Século XX

...Multiplicaram-se os exemplos de heroismo e de dedicação. Algumas praças do batalhão disciplinar, constituido, em geral, por vadios idos do continente, não tinham bom comportamento.

No entanto, quando chegou o momento do ataque, resgataram todas as suas faltas. Portaram-se com valentia nas campanhas de 1902, na do Bailundo-Seles, e em 1903 na do Bimbe. No infeliz reconhecimento, de que escrevo, de sessenta e oito soldados dos seus, só escaparam trinta e oito, e destes, treze feridos com gravidade.

O impedido do azagaiado tenente Francisco Rezende, no momento do incidente, encontrava-se já no limiar da floresta, a oitocentos metros de distância, quando dá pela falta do seu amo. Pergunta por ele. Informaram-no do seu fim. Voltou para a retaguarda em busca do seu cadáver. No momento em que o levantava para o transportar, uma dúzia de Cuamatas transformaram-no num crivo.

O tenente da administração militar António Trindade, com uma perna esfacelada por uma bala é conduzido numa tipóia improvisada. Os carregadores que o transportavam, apenas sentiram a vizinhança do inimigo abandonaram-no, sem mais cerimónias. Lá ficou em poder dos Cuamatas que o trucidaram.

Havia seis horas que esses quatrocentos e noventa homens tinham saído do acampamento sãos, destemidos, confiados na própria força, esperançados na victória.



Que acontecia, no entanto, no acampamento ?

A ninguém passava pela cabeça a suspeita de um revez. Ao desânimo dos dias de inacção sucedeu a mais absoluta confiança. Quando, às oito da manhã, se ouviu, dal,i distintamente a fuzilaria; quando as descargas ou o tiro isolado da infantaria se intercalaram com o estampido das detonações da artilharia, todos acreditavam, no acampamento, num triunfo.

Após duas horas de fogo vivo, o tiroteio cessou completamente. Não havia dúvidas, raciocinava-se ali, os Cuamatas retiravam, as espingardas calavam-se para premitir à cavalaria correr em sua perseguição.

A certesa do êxito era geral, até que apareceu um soldado de cavalaria, a toda a velocidade, em direcção do acampamento. Apenas se encontrava a pouca distância de ser ouvido, berrou:

- « Está tudo morto ! »

- « Enlouqueceste, homem » - esclamavam os ouvintes entreolhando-se assombrados.

- « Faltam as munições ! Não se pode dar nem mais um tiro » - esclarecia o sinistro emissário.

Apeou-se, logo o cercaram e muito comovido e pesaroso narrou com terrivel laconismo, o quanto acontecera no fatal ataque.

O comandante da coluna mandou imediatamente quarenta homens para proteger a retirada. Iam abundantemente municiados e levavam ainda mais quatro cunhetes de cartuchos. Marcharam em direcção ao ponto de onde surgira o soldado de cavalaria, internaram-se um pouco pela floresta, mas não encontraram ninguém.

Estava escrito que naquele dia se acumulariam as fatalidades. O grupo comandado pelo tenente Rodrigues, que primeiro se enbrenhou no bosque, fez de súbito um desvio para sudoeste, à procura do caminho percorrido à ida. Acoçados de perto pelos Cuamatas, desembocaram numa clareira. Do acampamento, que não desconfiavam que viriam dali camaradas seus, na confusão daquele dia, dispararam nessa direcção alguns tiros de lanternetas. Uma delas explode no meio da companhia europeia, tão ordenada e tão briosa no meio da pavorosa catástrofe, dilacerando vários soldados, despedaçando outros e matando o tenente de infantaria Luz Rodrigues, que os comandava, e os alferes de artilharia Pinto Rodrigues e Nunes de Carvalho. Pronunciou-se, então, implacàvelmente a derrota, ainda mais implacàvelmente agravada pelos Cuamatas.

Toda a coluna recebeu ordem de retirada para o Humbe. O movimento executou-se com rapidez e ainda mais ràpidamente atravessou o Cunene. Quando as quarenta praças, que tinham partido em socorro dos seus camaradas, regressou, apenas encontraram três carretas boers. Tudo o mais ia em marcha...

JORGE DEYLLOT

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7

domingo, 22 janeiro 2006 - 13:17

RE: O Que Se Passou No Sul De Angola Ao Nascer Do Século XX

...Esta voz fez o efeito de uma cápsula em abundante carga de dinamite. Ocorreu como uma explosão.

As faces do quadrado, como as paredes caídas de uma construção sob cujos alicerces tivesse rebentado um potentíssimo explosivo, oscilou, vacilou, cambaleou, tremeu, sacudiu, agitou-se e acabou por desconjuntar-se completamente. As praças nativas, as que mais depressa se deixaram envolver pelo pânico, deformaram a companhia europeia e espalharam-se por todos os lados como papéis lançados ao capricho de lufadas de vento impetuosos.

Os guerreiros indígenas, guiados pelo seu instinto guerreiro e de morticínio, apercebeu-se ràpidamente da ordem que fora dada, concentrou-se e com saltos vertiginosos, com gestos de possessos, num alarido de inúmeras alcateias de lobos reunidas, ébrios pelo triunfo e pelo sangue, brandindo todas as armas inimagináveis, arremeçaram sobre a coluna portuguesa.

A luta singularizou-se em combates isolados. Travaram-se duelos corpo-a-corpo, mas em que esmagadoras e desporpocionadas condições ! Foi uma hecatombe medonha. Nunca pulos de jaguares ou leopardos adquiriram maior violência. Reluziam as azagaias grandes e ponteagudas, movimentaram-se os machados de acção destruidora e fulminante, estoiravam os tiros disparados à queima roupa, ergueram-se e baixaram os cotundentes porrinhos .

Os soldados indigenas, aturdidos, fogiram e foram trucidados na fuga; os brancos defenderam-se com uma energia raivosa. Ao verem a morte certa, sem um vislumbre de salvação, aceitaram o vislumbre do inadiàvel destino, mas de pé, devagarinho, iam acumulando e acamando um monte de cadáveres na sua frente até que viesse o último golpe, que os livraria dos longos e lancinantes martirios se os arrastassem vivos para as sanzalas. A companhia europeia foi a única unidade que se manteve firme e tranquila.

« Quem não tem comando, que venha para aqui ! » gritava o tenente Rodrigues.

Essa companhia retrocedeu. Juntaram-se-lhe as praças que não perderam o sangue frio e os oficiais que o podiam fazer. À volta, o espectáculo era desolador. Por todo o lado ouviam-se queixumes, brados, apelos de socorro, gritos desabridos, lamentos terriveis de dor e de desespero.

No sinistro montão, já não se distinguiam os mortos, impassiveis, dos sangrentos moribundos que se contorciam em arrancos de agonia final. A confusão, a barafunda, arrepiava as carnes dos mais egoistas. Aqui e ali, em diminutos grupos, alguns feridos, num último esforço de coragem, tentavam levantar-se sobre um joelho, olhavam em redor procurando uma arma para cravar nas hienas que os rodeavam, uivando.

A maior parte, porém, tombava de novo, abrindo ainda mais as feridas e empoçando a erva próxima com o sangue que delas brotava ou golfava a jorros.

Outro grupo, comandado pelo capitão Morais, atingido por diversos ferimentos, mas rápidamente tratado pelo médico naval Dr. Manuel da Silveira, internou-se no bosque em linha recta. Para que este recuo não degenerasse num pavoroso desastre, o tenente da armada Roby galopou até um ponto distante a servir de baliza para a marcha e para refrear quem se quisesse afastar do itinerário. O trajecto sulcava-se de corpos varados pelas balas ou crivados de azagaias.

Por fim o tenente Roby apeou-se e sentou-se num tronco de árvore com o cavalo seguro pelas rédeas. Chorava, quando o capitão Morais supondo-o ferido lhe pergunto:

« Que tem ? »

« Que vergonha, camarada, um revez desta ordem ! » - gemia o intrépido segundo tenente da armada, Roby.

« Não é ocasião para lamentações - replicou-lhe o capitão - Ajude-me a conduzir esta gente »


O tenente Roby atirou-se de repente para cima do selim, não proferiu uma palavra, virou-se na direcção de onde os guerreiros indígenas atacavam, esporeou o cavalo e arrojou-se às cegas, desembainhando a espada para o diluvio negro que crescia sempre. Acompanhou-o um cabo de dragões nesse doido acto de heroismo. Este último escapou para trazer a noticia da morte do jovem e brioso marinheiro e o seu revólver, que entregou ao capitão Morais.

Apareceu nesse momento o tenente de cavalaria Francisco Rezende, a pé. Ofereceram-lhe um muar. Preparava-se para montar, quando uma azagaia o atravessou, cortando-lhe a vida...

JORGE DEYLLOT

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sábado, 21 janeiro 2006 - 00:47

RE: O Que Se Passou No Sul De Angola Ao Nascer Do Século XX

...À medida que o fogo da coluna portuguesa fraquejava, mais os guerreiros indígenas se aproximavam. Chegaram até junto das primeiras fileiras. Então, ou alguém ordenou ou os próprios soldados tomaram essa iniciativa, realizou-se um combate à baioneta.

Os pelotões do batalhão disciplinar e bastantes soldados indígenas, tendo como comandante o tenente José Maria Ferreira do exército ultramarino, constituiram-se num bloco e cairam como uma catapulta sobre os guerreiros indígenas.

Levaram tudo de roldão diante de si, num esforço épico, irresistivel, tremendo, formidável, repelindo-os até cem metros. A desigualdade numérica era enorme.

Primeiro um tiroteio implacável e depois a proporção de um para dez obrigou a coluna portuguesa a parar na investida. As munições aproximavam-se do fim. Para complemento da desgraça, a correria desordenada dos portugueses, as cartucheiras, abertas, marcaram com os últimos maços de cartuchos o final daquela louca epopeia.

Dos que partiram cheios de vida e força, poucos se conservaram de pé. A maioria dos oficiais, graduados e praças do batalhão disciplinar caíram por terra. Os poucos não ceifados pelas balas ou azagaias dos Cuamatas , agruparam-se sob o comando do cabo Egídeo e resistiram, batendo-se sempre, até que este último chefe também caíu, não sem primeiro arrancar a culatra à sua carabina para não ser aproveitada pelo inimigo.

Debandou-os o instinto de conservação. Tresloucados, juntamente com os soldados indígenas, procuraram refugio no quadrado, partido, pouco consistente, com intervalos de mau presságio nas fileiras, e berraram

- « Mais pólvora ! Dêem-nos mais cartuchos ou estamos perdidos ! »

Por essa altura já muitos oficiais deixaram escoar o sangue pelas feridas mortais, como sucedeu com o tenente Trindade, da administração militar. A formatura em quadrado apresentava um tão grande alvo que nenhuma bala ou azagaia dos Cuamatas , se perdia. O número dos guerreiros indígenas foi sempre aumentando. Saiam dos abrigos de onde, até ali, fuzilavam ocultos a coluna portuguesa. O quadrado começou a perder a sua forma geométrica. As baixas avolumavam de forma sinistra. A companhia europeia, cheia de dedicação e uma grande camaradagem, cede dois " chapéus " de cartuchos aos fragmentos do batalhão disciplinar. Agora, que quase não havia munições, cada um torna-se avaro delas.

Mas o inimigo cada vez se animava mais. Aproximava-se, arrojava-se, precipitava-se, multiplicava as suas forças, desdobrando-se, apertando, triturando, esmagando na imensa mó orlada de dez mil lâminas ameaçadoras as mesquinhas dezenas de europeus.

O capitão Morais aproximou-se do seu colega Pinto de Almeida, comandante da força, e disse-lhe:

- « É grave a emergência. A retirada impõe-se sem demora. Não há já com que responder ao fogo do inimigo. Convém retroceder para o acampamento em boa ordem. A companhia europeia, que ainda não combateu, deve possuir cartuchos para cobrir o movimento, executado por fases ».

Pinto de Almeida concordou. Soou um toque de corneta, mas tão mal entoado, tão baixo, confuso, pouco estridente, que quase ninguém o ouviu. Mas o que repercutiu aos ouvidos de todos, o que todos distinguiram não foi uma voz de comando, seca, conciza, peremptória, imperiosa, foi:

- « Vamo-nos embora ! »...